quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Grão a grão, enche a galinha o papo


Miniaturista italiano (c. 1398). Tacuinum Sanitatis, manuscrito
(Codex Vindobonensis S.N. 2644). Tamanho do fólio: 330 x 230 mm.
Biblioteca Nacional Austríaca, Viena.

As eleições autárquicas do passado dia 2 de Outubro deram uma vitória folgada ao MIETZ, o qual elegeu 4 vereadores contra os 3 conseguidos pelo PS. Pese embora a vitória, o Partido do Presidente perdeu um vereador a favor do Partido Socialista.
O MIETZ, partido furta-cores apresentou a sufrágio listas em que figuravam trânsfugas da CDU, do PCP, do PS e do PSD e nas quais era notória a presença de funcionários e assessores do Município. Pelos vistos, o eleitorado gostou, o que conduziu aquele Partido à vitória.
Estratégia eleitoral
Para além de arruadas, a campanha eleitoral do MIETZ assentou no forte impacto de eventos, sobretudo a partir de Maio e dos quais destaco: 
- Inauguração do Parque Industrial de Veiros (25-5); - Apresentação do Projecto Museológico do Museu Berardo de Estremoz, junto ao edifício do Palácio dos Henriques (Palácio Tocha) (4-7): - Anúncio da recuperação das Portas dos Currais e muralha adjacente (6-7); - Divulgação da aquisição de mais uma varredoura pelo Município de Estremoz (11-7); - Anúncio do começo das obras de interligação entre os Casais de Santa Maria e a Urbanização de Mendeiros (18-7); - A aprovação em reunião de Câmara da celebração de um Protocolo entre o Município e a Sociedade Filarmónica Veirense, respeitante à cedência gratuita, pelo prazo de 25 anos, de um imóvel situado na Praça Marquês da Praia e Monforte, em Veiros, visando a realização das obras de reparação necessárias à sua funcionalidade e utilização futura (26-7); - Passagem por Estremoz da Volta a Portugal em Bicicleta (1-8); - Anúncio da conclusão ainda em Agosto das obras de construção do relvado sintético, no campo de futebol do Sporting Clube Arcoense (4-8); - Anúncio das Portas de Évora estarem a ser objecto de recuperação (11-8); - Gala na RTP-1 em que Évora Monte participou no Concurso 7 Maravilhas de Portugal – Aldeias, na categoria Aldeias Monumento (13-8); - Noite de Glamour junto ao Pelourinho (19-8); - Realização da Corrida Comemorativa dos 55 anos de Alternativa do cavaleiro José Maldonado Cortes (1-9); - Reabertura do Museu Rural em novo espaço do Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte (2-9); - Visita à Central Solar de Montes Novos, em São Bento do Ameixial, do Ministro da Economia e do Secretário de Estado da Energia (6-9); - Início da empreitada de “Contenção Periférica e de Fachada do Edifício Luís Campos”, a executar num prazo de 45 dias, pela Eco Demo - Demolições, Ecologia e Construção, S.A., de Leiria (6-9); - Apresentação no Teatro Bernardim Ribeiro da curta-metragem "Farpões Baldios" da estremocense Marta Mateus Cabaço, vencedora do Grande Prémio do Festival de Curtas de Vila do Conde (16-9); - Realização pelo Município e no decurso da campanha eleitoral, de 400 entrevistas para um concurso de atribuição de 80 postos de trabalho; - Manifestação de afectividades a eleitores idosos, a curta distância das assembleias de voto, situadas na Junta de Freguesia de Estremoz (2-10).

À laia de balanço
Muitos gritarão “Aqui-d’el-rei”, argumentando tratar-se de mero eleitoralismo. Todavia, eu que tenho queda para os provérbios, mais não digo que:
- “Grão a grão, enche a galinha o papo”. 

Hernâni Matos 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Poesia portuguesa - 086




Tabacaria (1)
Fernando Pessoa (1888-1935)

Não sou nada. 
Nunca serei nada. 
Não posso querer ser nada. 
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. 

Janelas do meu quarto, 
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é 
(E se soubessem quem é, o que saberiam?), 
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, 
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, 
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, 
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, 
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, 
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada. 

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. 
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, 
E não tivesse mais irmandade com as coisas 
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua 
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada 
De dentro da minha cabeça, 
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida. 

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu. 
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo 
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, 
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. 

Falhei em tudo. 
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. 
A aprendizagem que me deram, 
Desci dela pela janela das traseiras da casa, 
Fui até ao campo com grandes propósitos. 
Mas lá encontrei só ervas e árvores, 
E quando havia gente era igual à outra. 
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar? 

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? 
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! 
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! 
Génio? Neste momento 
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu, 
E a história não marcará, quem sabe?, nem um, 
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras. 
Não, não creio em mim. 
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas! 
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? 
Não, nem em mim... 
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo 
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando? 
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas - 
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -, 
E quem sabe se realizáveis, 
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? 
O mundo é para quem nasce para o conquistar 
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. 
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez. 
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo, 
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu. 
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, 
Ainda que não more nela; 
Serei sempre o que não nasceu para isso; 
Serei sempre só o que tinha qualidades; 
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta 
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, 
E ouviu a voz de Deus num poço tapado. 
Crer em mim? Não, nem em nada. 
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente 
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo, 
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha. 
Escravos cardíacos das estrelas, 
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama; 
Mas acordámos e ele é opaco, 
Levantámo-nos e ele é alheio, 
Saímos de casa e ele é a terra inteira, 
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido. 

(Come chocolates, pequena; 
Come chocolates! 
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. 
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. 
Come, pequena suja, come! 
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! 
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho, 
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.) 

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei 
A caligrafia rápida destes versos, 
Pórtico partido para o Impossível. 
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas, 
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro 
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas, 
E fico em casa sem camisa. 

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas, 
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva, 
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta, 
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida, 
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua, 
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais, 
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -, 
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire! 
Meu coração é um balde despejado. 
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco 
A mim mesmo e não encontro nada. 
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. 
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, 
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, 
Vejo os cães que também existem, 
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo, 
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.) 

Vivi, estudei, amei, e até cri, 
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. 
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, 
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses 
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); 
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo 
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente. 

Fiz de mim o que não soube, 
E o que podia fazer de mim não o fiz. 
O dominó que vesti era errado. 
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. 
Quando quis tirar a máscara, 
Estava pegada à cara. 
Quando a tirei e me vi ao espelho, 
Já tinha envelhecido. 
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. 
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário 
Como um cão tolerado pela gerência 
Por ser inofensivo 
E vou escrever esta história para provar que sou sublime. 

Essência musical dos meus versos inúteis, 
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse, 
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte, 
Calcando aos pés a consciência de estar existindo, 
Como um tapete em que um bêbado tropeça 
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada. 

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. 
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada 
E com o desconforto da alma mal-entendendo. 
Ele morrerá e eu morrerei. 
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos. 
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também. 
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, 
E a língua em que foram escritos os versos. 
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. 
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente 
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas, 
Sempre uma coisa defronte da outra, 
Sempre uma coisa tão inútil como a outra, 
Sempre o impossível tão estúpido como o real, 
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, 
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra. 

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?), 
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. 
Semiergo-me enérgico, convencido, humano, 
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário. 

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los 
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. 
Sigo o fumo como uma rota própria, 
E gozo, num momento sensitivo e competente, 
A libertação de todas as especulações 
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto. 

Depois deito-me para trás na cadeira 
E continuo fumando. 
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando. 

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira 
Talvez fosse feliz.) 
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela. 

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). 
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica. 
(O dono da Tabacaria chegou à porta.) 
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. 
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo 
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu. 

Fernando Pessoa (1888-1935)

(1) -  5-1-1928 / Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993): 252. 1ª publ. in Presença, nº 39. Coimbra: Jul. 1933.


 
Tabacaria Estrela Polar - Lisboa
"Tabacaria", poema de Álvaro de Campos na revista Presença n.º 39, Julho de 1933.

domingo, 15 de outubro de 2017

Memória de Adriano Correia de Oliveira

ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA - Mural em azulejos de António Carmo (1949 - ),
à entrada do Parque Biológico de Gaia, em homenagem ao músico e cantor,
erigido aquando do 25º aniversário do seu desaparecimento.


A 16 de Outubro de 1982 morre Adriano Correia de Oliveira (1942-1982), músico e cantor, um dos mais importantes e significativos intérpretes do fado de Coimbra e da chamada “canção de intervenção”. A sua discografia está assim distribuída: - ÁLBUNS: Adriano Correia de Oliveira (LP, 1967); O Canto e as Armas (LP, 1969); Cantaremos (LP, 1970); Gente de aqui e de agora (LP, 1971); Que nunca mais (LP, 1975); Cantigas Portuguesas (LP, 1980). - COMPILAÇÕES: Fados de Coimbra (1973); Memória de Adriano (1982); Fados e baladas de Coimbra (1994); Obra Completa (1994); Vinte Anos de Canções (1960-1980) (2001); Obra completa (2007). - SINGLES E EP’S: Noite de Coimbra (EP, 1960); Balada do Estudante (EP, 1961); Fados de Coimbra (EP, 1961); Fados de Coimbra (EP, 1962); Trova do vento que Passa (EP, 1963); Adriano Correia de Oliveira (EP, 1964); Elegia (EP, 1967); Adriano Correia de Oliveira (EP, 1968); Rosa de Sangue (EP, 1968); Cantar de Emigração (EP, 1971); Trova do Vento Que Passa nº2 (EP, 1971); Lágrima de Preta (EP, 1972); Batalha de Alcácer-Quibir (EP, 1972); O Senhor Morgado (EP, 1973); A Vila de Alvito (EP, 1974); Para Rosalía (EP, 1976); Notícias de Abril (Single, 1978).
Adriano Correia de Oliveira partiu há 34 anos. Todavia, a sua música e as suas canções, permanecem vivas nos nossos corações.

 Hernâni Matos
(16-10- 2013)

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Provérbios de Outubro

OUTUBRO - Iluminura do “Livro de Horas do Duque de Berry” (Século XV), manuscrito
com iluminuras dos irmãos Paul, Jean et Herman de Limbourg, conservado no
Museu Condé, em Chantilly, na França.

- Aí por São Lucas (18/10) bem sabem as uvas.
- Andar marinheiro, andar, não te apanhe São Simão (28/10) no mar.
- Com a vinha em Outubro, come a cabra e engorda o boi.
- Com a vinha em Outubro, come a cabra, engorda o boi e ganha o dono.
- De São Simão (28/10) a São Judas (28/10), comidas são as uvas.
- Dia de Santa Iria (20/10), pega nos bois e guia.
- Em dia de São Simão (28/10), quem não assa um magusto não é bom cristão.
- Em Outubro centeio ruivo.
- Em Outubro não fies só lã; recolhe o teu milho e o teu feijão, senão de Inverno tens a tua barriga em vão.
- Em Outubro não vás ao mar para pescar; mas vai ao celeiro e abre o mealheiro.
- Em Outubro o fogo ao rubro.
- Em Outubro o lume já é amigo.
- Em Outubro ou secam as fontes, ou passam os rios por cima das pontes.
- Em Outubro paga tudo e recolhe tudo.
- Em Outubro paga tudo.
- Em Outubro pega tudo e recolhe tudo.
- Em Outubro pega tudo.
- Em Outubro recolhe tudo.
- Em Outubro sê prudente: guarda o pão, guarda a semente.
- Em Outubro semeia e cria, terás alegria.
- Em Outubro, centeio ruivo.
- Em Outubro, cordoadas de São Francisco (4/10).
- Em Outubro, meu trigo cubro.
- Em Outubro, Novembro e Dezembro, abre o teu celeiro e o teu mealheiro.
- Em Outubro, Novembro e Dezembro, quem come do mar, tem que jejuar.
- Em Outubro, o fogo ao rubro.
- Em Outubro, o lume já é amigo.
- Em Outubro, ou secam as fontes ou passam os rios por cima das pontes.
- Em Outubro, S. Simão (28/10), favas no chão.
- Em Outubro, S. Simão (28/10); semear, sim; navegar, não.
- Em Outubro, semeia, cria e terás alegria.
- Em São Simão (28/10), fava na mão.
- Janeiro gear, Fevereiro chover. Março encanar, Abril espigar, Maio engrandecer. Junho ceifar, Julho debulhar, Agosto engavelar. Setembro vindimar, Outubro revolver, Novembro semear, Dezembro nasceu Deus para nos salvar.
- Logo que Outubro venha, procura a lenha.
- No dia de São Simão (28/10) e São Judas já colhidas são as uvas.
- No dia de São Simão (28/10), barcos para trás do portão.
- No Outono o Sol tem sono.
- No São Simão (28/10), fava no chão.
- Outubro chuvoso faz ano venturoso.
- Outubro chuvoso toma o lavrador venturoso.
- Outubro erveiro, guarda para Março o palheiro.
- Outubro lavrar, Novembro semear, Dezembro nascer.
- Outubro meio chuvoso, torna o lavrador venturoso.
- Outubro nublado, Janeiro molhado.
- Outubro quente traz o Diabo no ventre.
- Outubro seca tudo.
- Outubro seca tudo. Se em Outubro demorares a terra a lavrar, pouco hás-de enceleirar.
- Outubro secão, negaças de verão.
- Outubro sisudo colhe tudo.
- Outubro sisudo, recolhe tudo.
- Outubro suão, negaças de Verão.
- Outubro vaca para o palheiro e porco para o outeiro.
- Outubro, paga tudo.
- Outubro, pega tudo.
- Outubro, recolhe tudo.
- Outubro, rega tudo.
- Outubro, revolver.
- Outubro, seca tudo.
- Outubro, vaca para o palheiro e porco para o outeiro.
- Ouvidos a comer, água que vai chover.
- Pelo São Francisco (4/10) semeia o teu trigo e a velha que o dizia, semeado o linha.
- Pelo São Francisco (4/10), nem nado, nem no cortiço.
- Pelo São Lucas (18/10), mata os porcos e tapa as cubas.
- Pelo São Simão (28/10) e São Judas (18/10) já colhidas são as uvas.
- Pelo São Simão (28/10) enfarrusca o pinhão.
- Pelo São Simão (28/10), quem não faz um magusto, não é cristão.
- Pelo São Tadeu (28/10) e São Judas (28/10) prova as uvas.
- Por Santa Ireia (20/10), toma os bois e semeia.
- Por São Francisco (4/10) semeia o teu trigo; e a velha que o dizia, já semeado o tinha.
- Por São Francisco (4/10), semeia teu trigo.
- Por São Lucas (18/10) mata teus porcos e tapa tuas cubas.
- Por São Lucas (18/10), sabem as uvas.
- Por São Simão (28/10) e São Judas, colhidas são as uvas.
- Por São Simão (28/10), fava na mão.
- Por São Simão (28/10), favas no chão.
- Por São Simão (28/10), semear sim, navegar não.
- Quando o Outubro for erveiro, guarda para Março o palheiro.
- Quando Outubro for erveiro, guarda para Março o palheiro.
- Quem planta no Outono leva um ano de abono.
- São Simão (28/10), fava na mão.
- Se as andorinhas partirem em Outubro, seca tudo.
- Se em Outubro demorares a terra a lavrar, pouco hás-de enceleirar.
- Se em Outubro te sentires gelado, lembra-te do gado.
- Setembro, vindimar; Outubro, revolver.
- Vindima em Outubro que S. Martinho te dirá.

domingo, 8 de outubro de 2017

2.ªs Jornadas para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial do Alentejo


A Mesa do 4º Painel. Fotografia de Luís Guimarães.

Decorreram no passado dia 16 de Setembro no Auditório São Mateus, em Elvas, as 2.ªs JORNADAS PARA A SALVAGUARDA DO PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL DO ALENTEJO, as quais relativamente ao Património Cultural Imaterial visavam: - Contribuir para a salvaguarda e uma mais ampla percepção da sua riqueza e diversidade; - Propagar a sua importância; - Promover e valorizar à escala local as suas mais diversificadas e singulares expressões que os indivíduos, os grupos e as comunidades protagonizam e que dão sentido à própria identidade do país.
Foram organizadas conjuntamente pela Associação Portuguesa para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial e pela Câmara Municipal de Elvas, contando com a colaboração de várias Câmaras Municipais (Évora, Ferreira do Alentejo, Estremoz, Vidigueira, Grândola, Marvão e Campo Maior) da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo e de outras instituições como Sociedade de Geografia de Lisboa, Museu de Arqueologia e Etnografia do distrito de Setúbal, Associação Pédexumbo e Pporto dos Museus.
Nas Jornadas foram apresentadas 13 comunicações distribuídas por 4 painéis, cada um deles com o seu moderador.
No 4º painel, foi apresentada por Hernâni Matos a comunicação “O FIGURADO DE ESTREMOZ COMO PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL DA HUMANIDADE EM 2017?”. O comunicante, na sua qualidade de coleccionador e investigador do figurado de Estremoz, abordou sucessivamente os seguintes tópicos: 1 -Coleccionar bonecos de Estremoz; 2 - Invariância e mutabilidade nos bonecos de Estremoz; 3 - Marcas de identidade; 4 - Galeria dos bonecos de Estremoz; 5 - Tradição, inovação e mudança de paradigma; 6 -Bonecos de Estremoz a Património Cultural Imaterial da Humanidade.
A comunicação acompanhada de projecção, realçou a singularidade da manufactura “sui-generis” do figurado de Estremoz que a distingue de todo o figurado português. Destacou ainda o facto de bonecos de Estremoz serem pela sua excelência, notórias marcas de identidade cultural estremocense e alentejana.
A terminar, o comunicante confessou ter os bonecos de Estremoz na massa do sangue, pelo que subscreveu com alma e coração, a sua Candidatura a Património Cultural Imaterial da Humanidade e como jornalista, tem procurado através dos seus escritos, divulgar e potenciar uma Candidatura, que acredita será vitoriosa em Dezembro próximo.


Um aspecto da assistência. Fotografia de Luís Guimarães.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

E S T R E M O Z : Beldroegas para o Brasão Municipal, já!



Recentemente foi constituído na nossa cidade, um comité para a defesa dos direitos cívicos das beldroegas. Aquele colectivo vegetal fez-me chegar às mãos um documento, o qual dada a sua importância, reproduzo na íntegra e sem comentários.

MANIFESTO DAS BELDROEGAS
Bilhete de identidade
Nós beldroegas, designadas cientificamente por “Portulaca oleracea”, somos encaradas como ervas daninhas, pois desenvolvemo-nos muito bem em climas temperados, solos drenados e a céu aberto. Daí brotar-mos em hortas, pomares, quintais, calçadas e passeios. Vivemos mais de um ano e temos crescimento rápido, chegando a medir 40 cm de comprimento. Somos rasteiras, com folhas espessas e carnudas e flores amarelas pequenas de cinco pétalas.
Há quem nos considere plantas invasoras, difíceis de ser erradicadas, pois cada uma de nós pode produzir elevado número de pequenas sementes, as quais podem permanecer viáveis por mais de dez anos. Todavia há quem nos considere invasoras benéficas em plantações, por sermos consideradas plantas companheiras doutras como é o caso do milho.
Utilização culinária
Temos sabor ligeiramente ácido e os nossos caules, as nossas folhas e as nossas flores podem ser comidos crus ou cozinhados sob a forma de sopas, saladas, esparregado ou infusão. São bem conhecidas sopas como: sopa de beldroegas, sopa de beldroegas com arroz, sopa de beldroegas com coentros, sopa de bacalhau com tomate e beldroegas, sopa de grão com beldroegas salteadas, arroz de beldroegas e açafrão, arroz integral de tomate e beldroegas. Já quanto a saladas, destacamos: salada de beldroegas, salada de beldroegas com tomate e cebola, salada de batata com beldroegas e alcaparras.
Uso medicinal
Somos ricas em substâncias como ómega-3, glicose, frutose, sacarose, α-tocoferol, β-caroteno, glutationa, vitaminas A, B, C, minerais como magnésio, cálcio, potássio e ferro.
Temos propriedades diuréticas, emolientes, emenagogas, laxantes, vermífugas, anti-escorbúticas, sudoríferas, depurativas, anti-inflamatórias, anti-hemorrágicas, anti-oxidantes e anti-cancerígenas.
Somos eficazes na depuração do sangue, no tratamento de doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes, doenças da vista, da bexiga, rins e vias urinárias, disenteria, enterite aguda, mastite, hemorróidas, cistite, hemoptises, queimaduras, úlceras, artrite e outros distúrbios inflamatórios e auto-imunes, bem como no cancro.
Os nossos talos e folhas pisadas podem ser aplicados sobre queimaduras e feridas, pois aliviam a dor e aceleram o processo de cicatrização. O suco das nossas folhas pode ser utilizado para tratar inflamações oculares, queimaduras, eczemas, erisipelas e calvície, quando aplicado directamente na área afectada. O nosso suco ingerido trata problemas de fígado, bexiga e rins. Sob a forma de chá temos propriedades diuréticas. As nossas sementes quando ingeridas combatem vermes intestinais.
Uso ornamental
Por sermos floridas, há variedades nossas que são cultivadas em jardins, canteiros, vasos e floreiras. Propagamo-nos rapidamente, florescemos todo o ano e não exigimos cuidados especiais para além de sol e água.
Nós e o Executivo Municipal
O nosso relacionamento com o Executivo Municipal é excelente e é mesmo o melhor de sempre. Outra coisa não seria de esperar, já que nos permite crescer à vontade por tudo o que é calçada e passeio. Como as ruas estão por varrer, pensamos que seja gentileza da sua parte, a fim de que não tenhamos falta de nutrientes. O nosso grande problema é a seca. Daí que façamos um apelo a que nos mandem regar. As beldroegas agradecem.
Uma justa reivindicação
A nossa proliferação pela cidade e o nosso carácter ornamental, são reveladores do nosso empenho bairrista em corporizar o slogan do Município: ESTREMOZ TEM MAIS ENCANTO.
A Política Agrícola Comum (PAC) da União Europeia é responsável pelo baixo indicie de cultivo de cereais no nosso concelho e entre eles, o tremoceiro que figura no Brasão Municipal. Daí e dada a nossa abundância, não é despropositado reivindicar a nossa inclusão naquela composição heráldica, em substituição do tremoceiro. Daí que proclamemos:
- BELDROEGAS PARA O BRASÃO MUNICIPAL, JÁ!

Comité para a Defesa dos Direitos Cívicos das Beldroegas

Hernâni Matos

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O termómetro da Singer



No pino do Verão quando se fazia sentir a canícula, o edifício da antiga Singer no Rossio Marquês de Pombal em Estremoz, era ponto de passagem e de paragem obrigatória. É que na frontaria do rés-do-chão existia um termómetro de razoáveis dimensões, que permitia aos transeuntes avaliar a temperatura do ar. Estava ali há muito tempo. Pelo menos desde o Tempo da Outra Senhora.
Era um termómetro “SINGER SEWING MACHINES”, com dupla escala, Celsius e Fahrenheit, o qual apesar de ser um termómetro privado, prestava um serviço público.
Era um termómetro bem-pensante e que falava com as suas escalas, dizendo coisas do tipo:
- “Isto hoje é só a subir. Vão ver que vamos ter um corrupio de gente a olhar para nós!”
- “Aquele está a ler mal a temperatura. Esqueceu-se que está mais baixo e está a cometer um erro de paralaxe.”
- “Aqueles dois fizeram uma aposta. Depois de lerem a temperatura, um teve que dar uma moeda ao outro.”
- “Tomara que venha sombra. De tanto subir a temperatura estou a ficar com tonturas.”
Por vezes, as pessoas mais velhas que por ali paravam lembravam-se de pérolas do nosso adagiário, arrecadadas nas espaçosas gavetas da sua memória: “Cigarra cantou, calor chegou.”, “Ande o calor por onde andar, pelo Santo António, há-de chegar.”, “Ande por onde andar o Verão, há-de de vir no S. João.”, “No tempo quente, refresca o ventre.”, “Nem no Inverno sem capa, nem no Verão sem cabaça.”, “No amor e no calor, não metas o cobertor.”.
Hoje tudo isso acabou. Ali já não se vendem nem máquinas Singer de costura ou de tricotar, nem tão-pouco as meninas vão aprender a bordar ou a tricotar, que as virtudes que é suposto devam ter, já não são estas.
Do termómetro apenas resta o sítio onde foi útil aos transeuntes desde o Tempo da Outra Senhora.
Com o desaparecimento do termómetro da Singer, a cidade ficou mais pobre. Daí que me atreva a fazer uma sugestão. Fico à espera que na mesma zona apareça uma entidade privada com disponibilidade para comprar um termómetro de parede, de preferência Singer e o aplique na sua frontaria. Seria uma atitude louvável e que lhe traria prestígio, visto com isso prestar um serviço público. A população agradece e fica à espera.