terça-feira, 30 de maio de 2017

Poetas em defesa da olaria de Estremoz - 08


António Simões (1934- )

Poeta, professor, pedagogo e tradutor beringelense. Licenciado em Filologia Germânica pela Universidade de Coimbra. Colaborador da imprensa regional: Brados do Alentejo (Estremoz) e Rodapé (Beja). Publicou poesia na imprensa nacional: Diário de Lisboa, Diário de Notícias, Jornal de Letras, O Século. Publicou igualmente na imprensa regional: Revista Convívio (Coimbra). Obras: Soneto de água e outros (Poesia, 1994), A Festa das letras (Poesia, 1995), Minha mãe amassa o pão (Poesia, 2001), Antologia de Poesia Anglo-Americana (Bilingue, 2002), Amor é um Fogo que Arde sem se Ver e outros sonetos (Poesia, 2004). Traduziu para a Campo das Letras, a partir do Inglês, livros de Andy Warhol: Anjos, Anjos, Anjos e Amor, Amor, Amor e as histórias para crianças: Noite de Natal, É duro ter 5 anos e Babushka. Tem diversas traduções na antologia de poemas Os Dias do Amor, publicada em Janeiro de 2009 pela editora Ministério dos Livros.
São de realçar aqui, as décimas inéditas, ainda não publicadas em livro, “Um pucarinho é bastante”, nas quais o autor glosa uma bem conhecida quadra do poeta António Sardinha, pertencente ao poema “O elogio do púcaro”.

UM PUCARINHO É BASTANTE 

Mote

Amor, se fores à feira,                  
Traz-me uma prenda galante.
Não quero nada d’ourives,
Um pucarinho é bastante.

I

Vive amor de quase nada,
Vive dum pouco que é tanto,
Duma lágrima de pranto
Dum gesto, duma mirada.
Ou da ternura embrulhada
Numa risada fagueira.
Digo à minha companheira
Por quem meu ser se desvela:
Traz-me uma prenda singela,
Amor, se fores à feira.

II

Traz-me o silêncio pasmado
Da praça que é o Rossio,
Ou o sussurro do rio
Correndo quase olvidado
Sob o chão empoeirado.
Se lá passares diante,
Traz do Sátiro cantante,
Essa água de ternura
Que amor sacia e perdura,
Traz-me uma prenda galante.

III

Amor é simplicidade
E com pouco se contenta.
Seja aos vinte ou aos oitenta,
O amor não tem idade.
Ele só quer a verdade:
Por isso, amor, não te esquives,
Porque a meu lado tu vives
E sabes bem como eu sou,
Este recado te dou:
Não quero nada d’ourives.

IV

O amor cabe num beijo,
Por maior que seja amor.
Seja ele como for,
É sempre igual ao desejo.
Por tudo o que sinto e vejo,
Para um coração amante,
O que é pequeno é gigante.
E para encher d’alegria
Quem ama, sofre e confia,
Um pucarinho é bastante.